sábado, julho 30, 2005

Minimalista, a estética do mundo envolve-me num não-abraço. Aperta-me com o seu cinto de castidade mínimo. Revolve-me, num rodopio feito de tonturas. Oferece-me o vazio, em troca de desejos esvaídos no rio do pó da alma. Alguém sopra para o pó, e o vazio adensa-se, imaterial. Vento a passar no vazio, deslocações vazias no espaço da frustração invisível. Frustrações que passam como o vento, sem cortejo. Pequenas picadas de abelha, espigões inocentes mas afiados. Um irrequieto por sob uma língua saudosa, engolido em seco. Mudez. O único sabor, a repetição, a mesma. A novidade refugia-se atrás dos espinhos viris de um roseiral murcho.
Os espasmos de poesia, falsas mensagens na garrafa. Deprimente, o constatar do deprimente. A perturbadora estética de um suicídio abstracto, incompreensível. Perturbantes razões desnecessárias. A vontade de ninguém, a relva sem espinhos, de um verde enjoado. Longe na frase sem recursos estilísticos, de sonoridade afónica. A procura da deriva num mar estático de sonhos a seco. A inconclusividade do céu de nuvens indiferentes. Um parque sem infantilidade, de diversões com frio. Uma chama de calor extinto. A morte.


A morte,
a morte,
a morte,
a morte.

Cada vez mais,
a morte.
Caíndo a pique,
a morte.

quarta-feira, julho 27, 2005

Sabor a jazz


Sabor a jazz melancólico
invade o serão
e o quarto,
neste quarto
de hora. Dispersão.

Sabor a jazz, diabólico,
estica os minutos,
com o grude
que ilude
os meus eternos lutos.

Sabor a jazz pré-digerido
entope-me o organismo,
e regurgito
o velho mito
de que eu já nunca cismo.

Sabor a jazz. Bem definido,
quase perfeito,
o sem alento
do ritmo lento
de que é feito.

Sabor a jazz, redundante,
na noite já sem sabor
de tão mascada.
Serve de nada,
o paladar. Dissabor.

Sabor a jazz. Esgotante,
de tão real mas inerte.
Pouca a sorte,
na meia-morte
daqui. Vazio nos oferte

o sabor a jazz. Pesada
a escala da monotonia,
cujo compasso
veste um laço:
a desolação da harmonia.

De desilusões pejada,
permita-me a vida saborear
a dor que traz
todo este jazz.
Cismo que nela me hei-de contentar.
Estou farto do seco em tudo. Do stress secante, em tudo.. Farto, do stress que está em mim, e que eu procuro evitar, desviando-me. De tudo.
É um stress, o desviar-me de tudo. É uma seca, quando encontro um desvio e o sigo sem stresses.
E pelo meio? Uma identidade mal-parida, não tanto por encontrar, como por perder, por soltar..
Ando e respiro e ando, vejo, "olha, ando!", apago parte da sensação de apagado. Como o vento que sopra o pó de cima do baú de séculos e revela parte. Que haverá lá dentro? Pó? A madeira aparenta ser de qualidade. À sua maneira, como todas as madeiras, como todas as árvores.
Páro o cérebro, respiro e ando. Vejo, uma loja de animais. "Como não tenho asas, posso voar!" Só os elefantes não cabem em gaiolas, por isso são extintos. Um pouco de raiva contra a humanidade nunca matou.
Páro o cérebro, ando. Não vejo grande coisa. Para onde estou a ir?
Páro.
Páro o cérebro, respiro, ando. Um pequeno bah. Já não digo nada há tanto tempo. De que me serve o respirar, andar, respirar? Estou aqui, no stress de não ter stresses. No silêncio à mesma, essa ameaça de gaiola.
Páro o cérebro, ando. Vou ver se falo a alguém, então. Mas não vislumbro nenhuma rua por onde meter, nenhuma alma por conversar. De que me serve esta caminhada em frente, anti-desvios? Não será comportamento desviante?
Não.
Páro o cérebro, respiro, ando. Piso a rua. A única rua. Seja qual das ruas for, é a possível, a única.
Respiro. Ando. Vou. Com ir, sem ir, não importa. O importante são os pontos nos i's.
Vejo. Um muro. Qual é a moral disto? Não sei, mas o muro tem coisas imorais escritas. Numa escala de sorrisos, tem 0. Mas não por imorais o serem, bolas, não estou assim tão velho. Apenas pela clássica falta de inovação.
Vejo um restaurante chinês, agora sim, um 0.8. Porque faz lembrar as últimas de Alberto João Jardim. Um 1 ambulante.
No outro dia vi um 1.5. Em letras bem gordas, lia-se "NOTÁRIO: Pedro Rodrigues", à entrada de uns escritórios. Pensei no belo que seria, se alguém colasse um bocado de papel branco meticulosamente por sobre o N. E no dia seguinte, a maior parte dos colegas e restante gente do prédio não evitaria a gargalhada, mais ou menos discreta. E talvez até o próprio reagisse com uma indignação descontroladamente despropositada.
Páro as memórias. Respiro. É que isto não é um passeio.
Não ando.
Bocejo.
Fecho o post.

terça-feira, julho 26, 2005

Tudo é um bom mote


Tudo é um bom mote
para se querer poesia.
Basta escolher do lote
de coisas de um dia

e pedir uma emprestada
à realidade.
Bebê-la fria, bem gelada,
a verdade

líquida. O estômago
sem motes sorverá
o gélido âmago
do qual recriará

uma fotocópia fútil
e escura.
Pouco terá de útil
a candura

com que o fará, ou a
sólida dureza
do detalhe, da boa
análise, na mesa

as cartas. Pois
tudo se ultima
para depois,
no fim da rima,

se voltar à estaca
zero, ao dia sem poema.
E, forte ou fraca,
sobre alecrim ou alfazema,

a rima passada foi,
o verso vazio é.
Passou sem dizer "Oi",
pé ante pé ante pé.

Tudo é um bom mote
quando há falta de poesia.
Nada é um bom bote
quando está seca a ria.
Da madrugada passada.. (por isso, obviamente actual):


Na métrica do desencaixe


Por vezes, querer
sem disso esperar obter
mais que a vontade
implícita. Pois há-de

alguém compreender
o dito em sigilo?
Por vezes, esquecer
torna-se o asilo

possível. Pois há-de
servir a insistência
no que não foi (saudade,
ainda assim)? Dormência,

por vezes, semi-doença que
se instala. Pois há-de a mente
reflectir, quando sempre mente
no agir? Um passeio no parque

o bálsamo, por vezes.
Pois há-de haver remédio
para evitar o tédio
duma prisão? Por vezes,

tranquilidade nasce
do vento, do mar, da paz
que um olhar traz, se
na calma absorto. Apraz,

por fim, respirar. Sopra
a inspiração ao de leve, a cada
passo, novo andar. Oh, pra
quê bocejar? Mas junto à entrada

duma nova divisão, o inconstante
é sempre porteiro, e não obstante
a força de ser, frescura das criações,
inventa e impõe novas limitações.
De 3 de Abril, ainda bastante actual:


Nada retorna.
Células que se esvaem, e ainda uma mínima réstia de expectante.
A sombra de um gajo sombrio por cima da montanha, cuja escalada invertida faz estremecer.
Não se vêem caras, não se vêem mundos. Vê-se o mínimo, e alguns tudos pelo meio..
Ilusão.
Rasgo de confiança por uns intervalos afora até ao amanhã, que pode ser hoje, dia em que é inútil, porque sempre foi inútil.
Dia sem tempo.
Ficam os lugares comuns, para que não percam o comum que neles há, outro tanto de inútil.
As miragens que passaram. No desespero sabia-se a recta das coisas, com dor. No lume brando, era questão de procurar, sabendo os estados de espírito. Lidar pontualmente, mesmo com a visão desfocada de outrém, perfeitamente sabida e nem sequer um desafio. A visão que vão questionar, como sempre.
Mas hoje acabou. Retrocedo para o ninguém, pescador sem o dar conta da próxima pequena ilusão que o queira ser, para nela me aperceber novamente do perpétuo que não quero. E nela redespertar a semi-fúria de estar mal vivo, e me lembrar de mim mesmo, e se sobrar espaço, confiar no eu dos futuros breves, esmagar de leve a antecipação do indesejável. Mas sem exageros, a noção, sempre. Noção invísivel, mas pura.
Não é o mais fácil nem o mais difícil. É como se acorda.
Se me pudesses um dia entrar na cabeça e ver o que eu vejo. E sentir... Ias perceber tão bem, ias ver o quanto te enganas.